A ciência por trás das modas bizarras de tratamentos de pele, de sêmen de salmão a cocô de passarinho

  • 04/04/2026
(Foto: Reprodução)
Mulher recebe aplicação de máscara facial. Getty Images via BBC Na clínica You & I em Seul, capital da Coreia do Sul, um dos tratamentos de textura da pele mais requisitados envolve a injeção de minúsculos fragmentos de DNA de esperma de salmão na derme, a espessa camada intermediária da pele que abriga os vasos sanguíneos, nervos e glândulas. "O objetivo não é aumentar o volume, como em um preenchimento, mas incentivar ou bioestimular a pele. Isso envolve a promoção de um ambiente dérmico mais saudável e sua recuperação", diz o médico especializado em estética da clínica You & I, Kyu‑Ho Yi, que também é professor da Universidade Yonsei. Pode parecer uma ideia bizarra, mas Yi afirma que este conceito, na verdade, tem origem no mundo da medicina regenerativa e na cura de feridas. Neste campo, os fragmentos de DNA dos peixes chamaram atenção pelo potencial de estimular o reparo de tecidos de pessoas com cicatrizes no rosto causadas por lesões em combate. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Os dados científicos ainda são escassos, mas alguns estudos indicam que os tratamentos usando os polinucleotídeos purificados do esperma de salmão podem ajudar a reduzir o surgimento de linhas de expressão. Demonstrou-se que eles "ajudam a melhorar a hidratação, a gordura, a textura e as rugas da pele", segundo o professor de dermatologia Joshua Zeichner, do Hospital Mount Sinai, nos Estados Unidos. Zeichner também trabalhou como consultor de empresas especializadas em cuidados com a pele. "Não se sabe ao certo como alguém teve a ideia de experimentar isso como tratamento da pele, mas fato é que está sendo usado." Como a Coreia do Sul agora é considerada criadora de tendência no setor de estética, fenômeno conhecido em inglês como K-Beauty, os supostos benefícios das injeções de esperma de salmão e outros peixes se espalharam pelo mundo. Eles foram promovidos por inúmeras celebridades, como a cantora Charli XCX e a atriz Jennifer Aniston. Sua popularidade cresceu ao lado de uma série de outros tratamentos considerados estranhos, incluindo máscaras faciais feitas de cocô de passarinho e tratamentos faciais vampíricos, que sugam o sangue dos pacientes. Esses tratamentos incomuns estão na moda, mas será que realmente funcionam? Beleza ancestral Uma folheada nos livros de história mostra que o cuidado com a pele tem um longo histórico de práticas aparentemente estranhas. Afirma-se, por exemplo, que a rainha Cleópatra (69 a.C.—30 a.C.) se banhava em leite de burra azedo. Aparência de Ana Paula Renault levanta debate: procedimentos indicam pele saudável? Em Mianmar, há séculos as mulheres aplicam ao rosto uma pasta conhecida como thanaka. Ela é feita de casca de árvore moída e serve como prática decorativa, além de proteger a pele contra lesões causadas pelo sol. Um remédio romano para manchas incluía o intestino moído de crocodilos filhotes. Algumas dessas terapias de beleza ancestrais resistiram ao tempo. Ingredientes como cúrcuma, Centella asiatica e algas marinhas estão presentes em produtos modernos graças às suas propriedades hidratantes e anti-inflamatórias. Em 2022, um estudo examinou diversos produtos de tratamento de pele usados na Itália do século 12. Eles foram mencionados nos escritos de uma médica medieval chamada Trota de Salerno. Os pesquisadores observaram que muitos dos ingredientes indicados, como vinagre e feijão-fava, são até hoje eficazes para a higiene facial, a exfoliação e o tratamento de pele ressecada. Um extrato de óleo de tártaro conhecido como ácido tartárico, por exemplo, é um ingrediente comum no tratamento de pele. Os tratamentos faciais das gueixas e as máscaras menstruais Não se trata apenas de plantas, ervas e minerais encontrados na natureza. O chamado "tratamento facial das gueixas" envolve a coleta de excrementos de rouxinóis, sua sanitização com a poderosa luz ultravioleta, a mistura com outras substâncias, como exfoliantes e um branqueador, e a aplicação em máscaras. Essa técnica escatológica tem origem em uma descoberta japonesa feita séculos atrás, a de que o cocô do rouxinol-bravo-japonês pode ser empregado em tecidos como removedor de tinta. Isso levou ao uso dos excrementos para clarear a pele e remover a maquiagem usada para entretenimento. O tratamento é popular em diversas clínicas do mundo, para branquear a pele — e, novamente, a ciência talvez confirme sua eficácia. Algumas rotinas de tratamento de pele atuais têm mais fundamentos científicos do que outras. Getty Images via BBC Zeichner afirma que os rouxinóis deixam concentrações particularmente altas de ureia nos seus excrementos. Essa substância pode suavizar a pele e é incorporada a umectantes. O cocô dessas aves também contém altas concentrações do aminoácido guanina. "Já se demonstrou que eles possuem efeitos hidratantes e branqueadores", diz Zeichner. "Mas é importante ressaltar que esses tratamentos usam excremento de rouxinol purificado e modificado. Você não deve simplesmente recolher o cocô de passarinhos na rua e esfregar no rosto." Outro ponto importante a ser observado é que muitos estudos sobre esses tratamentos foram financiados pela indústria da beleza ou realizados por cientistas empregados pelas empresas envolvidas na sua produção. Mas os pesquisadores estão menos entusiasmados com outro suposto tratamento da pele que vem aparecendo no TikTok: a máscara menstrual, que são máscaras faciais do sangue da menstruação. Um estudo de 2018 indicou que o plasma derivado do fluido menstrual pode ser capaz de curar feridas melhor que o plasma sanguíneo comum. Mas a pesquisadora Beibei Du-Harpur, do King's College de Londres, não se convenceu. "Nenhum clínico recomendaria isso", ela diz. "Acho que é apenas uma daquelas tendências do TikTok que surgem devido ao choque e às pessoas que querem obter visualizações no TikTok." Tratamentos faciais vampíricos e plasma rico em plaquetas Du-Harpur é mais otimista em relação ao potencial de injeções de plasma rico em plaquetas, conhecido como PRP e às vezes chamado de "tratamento facial vampírico" (vampire facial, em inglês), voltado ao rejuvenescimento da pele. O procedimento envolve retirar o sangue do próprio paciente e colocá-lo em uma centrífuga para separá-lo em frações. O processo ajuda a concentrar no plasma os diversos fatores de crescimento, um grupo especial de proteínas que levam ao crescimento, à divisão e à reparação das células. O sangue então é injetado de volta no rosto, através de microagulhas. O uso dos fatores de crescimento do próprio corpo de forma regenerativa é objeto de interesse em várias áreas da medicina, desde o tratamento da osteoartrite e outros problemas das juntas até a alopecia e a cura de feridas. As evidências em relação à saúde da pele permanecem incertas, mas alguns estudos concluíram que essa terapia aumentou a elasticidade da pele de pessoas na casa dos 50 e 60 anos e diminuiu as rugas e a pigmentação. "Existe muita variabilidade no grau de sucesso do PRP entre as pessoas", afirma Du-Harpur, explicando que isso se deve a diferenças nas máquinas usadas no processo de centrifugação e às pessoas terem maiores ou menores concentrações de fatores de crescimento. Ou ainda diferentes tipos concentrados naturalmente no sangue. O futuro do tratamento de pele Mesmo as mais bizarras rotinas de tratamento de pele podem ter algum respaldo científico. Mas os cientistas acreditam que as opções para a próxima geração de terapias envolverão novas formas de suplementação de colágeno. Um estudo recente, financiado pelo setor dermocosmético, usou aminoácidos criados especialmente para essa suplementação. Em seis meses, eles trouxeram não só melhorias de textura, hidratação e elasticidade da pele como também a redução de sua idade biológica em quase um ano e meio, segundo testes de DNA feitos a partir da coleta de saliva dos pacientes. Os pesquisadores concluíram que suplementos de colágeno contendo esse equilíbrio específico de aminoácidos poderão não só recuperar a pele, mas também melhorar outros aspectos da saúde. Essas descobertas reafirmam o resultado de pesquisas que demonstram que a pele desempenha um papel, até então pouco reconhecido, na saúde geral do corpo, ao controlar, por exemplo, as inflamações. Mas o estudo também concluiu que são necessárias mais pesquisas sobre todos esses processos envolvidos. Muitas das pesquisas na área são financiadas pelo setor dermocosmético. Getty Images via BBC Outras terapias recentes exploram formas inovadoras de manipular o microbioma da pele — a população de micróbios invisíveis que mora no nosso rosto e contribui fortemente para as inflamações na pele. Os tratamentos em potencial incluem prebióticos projetados para nutrir as bactérias e os posbióticos, substâncias produzidas naturalmente pelas próprias bactérias, que sejam úteis, segundo Zeichner. No ano passado, pesquisadores sul-coreanos publicaram a descoberta de uma bactéria encontrada no sangue que produz posbióticos capazes de reduzir as inflamações, o estresse oxidativo e os danos ao colágeno nas células da pele. Mas isso apenas em laboratório. Para se tornar um tratamento efetivo, Zeichner destaca que qualquer processo deve ter comprovada sua eficácia maior do que qualquer uma das soluções disponíveis comercialmente há décadas. "A questão ainda é se os tratamentos da moda realmente oferecem benefícios maiores do que os produtos tradicionais que temos no mercado", diz ele. Em vez de gastar US$ 500 (cerca de R$ 2,6 mil) em um tratamento facial para obter uma única melhoria em termos de hidratação e brilho, Zeichner preferiria que as pessoas mantivessem uma rotina consistente, usando filtro solar pela manhã para proteger a pele contra as lesões ambientais, e hidratação e reparo à noite, com um hidratante noturno e um ingrediente estimulante do colágeno, como retinol.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/04/04/a-ciencia-por-tras-dos-tratamentos-de-pele-de-semen-de-salmao-coco-de-passarinho.ghtml


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