Comissão escancara falhas gravíssimas e milhares de infrações no transporte público de Campo Grande
09/06/2026
(Foto: Reprodução) Transporte coletivo em Campo Grande.
Prefeitura de Campo Grande/Divulgação
A Comissão Especial criada em Campo Grande para apurar irregularidades no transporte coletivo da capital concluiu as análises em relação à prestação do serviço pelo Consórcio Guaicurus. O relatório aponta irregularidades operacionais consideradas gravíssimas como envelhecimento da frota, falta de seguros obrigatórios e 22 mil infrações de trânsito registradas entre 2021 e 2025.
O g1 teve acesso ao documento que recomenda a intervenção administrativa temporária na concessão para "sanar as deficiências e apurar responsabilidades de forma definitiva".
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O g1 entrou em contato com a prefeitura de Campo Grande, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Confira abaixo os principais apontamentos feitos pela Comissão:
Irregularidades operacionais
Entre 2021 e 2025, a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) registrou quase 22 mil autuações contra o Consórcio, com um agravamento progressivo ao longo dos anos. As principais ocorrências incluem:
Descumprimento de horários e omissão de viagens: Mais de 15 mil ocorrências somadas, afetando a regularidade do serviço.
Recursos insuficientes: Falta de veículos e motoristas reserva, além da ausência de veículos articulados exigidos.
Falhas em equipamentos: Defeitos em equipamentos obrigatórios, GPS, controles de passageiros e câmeras.
Condições e segurança da frota
O relatório aponta uma deterioração progressiva das condições operacionais:
Idade da frota: A idade média atingiu 7,6 anos, superando o limite de 5 anos estabelecido no edital, com 98 veículos possuindo mais de 10 anos de uso.
Reprovação em inspeções: O índice de reprovação em vistorias de segurança saltou de 5,4% em 2020 para 18,6% em 2025.
Falhas graves: Foram registrados ônibus circulando com portas abertas, pneus e rodas inadequados, elevadores de acessibilidade quebrados e panes mecânicas frequentes.
Interdições: Desde junho de 2025, 82 veículos foram interditados por falta de inspeção de segurança obrigatória
Seguros obrigatórios
A Comissão apurou que o Consórcio deixou de contratar e manter os seguros obrigatórios de responsabilidade civil e de veículos entre novembro de 2016 e julho de 2025.
Esse descumprimento de quase nove anos expôs usuários a riscos sem cobertura securitária e resultou em uma multa superior a R$ 12,2 milhões.
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Omissão de informações e marcos contratuais
Para a Comissão, houve falhas do Consórcio Guaicurus na transparência e gestão do transprote coletivo:
Não entrega de dados: Ausência da Pesquisa Matriz Origem-Destino e dos dados para aferição do Coeficiente de Integração Física, essenciais para o planejamento do sistema.
Sonegação de dados financeiros: Omissão sistemática no fornecimento de fluxos de caixa e informações contábeis solicitadas pelos reguladores.
Situação econômico-financeira e patrimonial
Auditorias que abrangem o período de 2016 a 2024 indicaram fragilidade financeira e elevado comprometimento do patrimônio líquido, gerando risco à continuidade do serviço, conforme o relatório. Além disso, foram citados indícios de irregularidades como:
Alienação de imóvel por R$ 14,4 milhões sem devida clareza contábil.
Movimentações financeiras suspeitas de cerca de R$ 32 milhões com outras empresas.
Omissão de receitas desde 2012.
Ainda conforme a Comissão, a intervenção administrativa recomendada também foi fundamentada com base na paralisação do funcionamento do transporte coletivo, ocorrida em dezembro de 2025.
Intervenção administrativa
A Comissão evidencia no relatório que a intervenção administrativa não tem caráter de punição ou extinção do contrato, mas que tem o objetivo de garantir a continuidade, segurança e adequação do serviço prestado pelo Consórcio Guaicurus.
Para que ocorra a intervenção, diretrizes deverão ser seguidas, como a formalização através de um o decreto municipal que deverá designar um interventor para assumir a gestão da operação.
Após a intervenção é necessária a instauração de um procedimento administrativo específico em um prazo de 30 dias. Nessa fase, conforme o relatório, o Consórcio tem direito à ampla defesa para contestar as causas determinantes da medida e a apuração de responsabilidades.
Intervenção no Consórcio Guaicurus
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