Do batuque de rua ao sambódromo em Batatais: conheça a história das escolas de samba
14/02/2026
(Foto: Reprodução) Carnaval de Batatais: conheça a história das escolas de samba
Quando o primeiro surdo bate, Batatais (SP) reconhece o próprio passado. O Carnaval da cidade não nasceu grande nem organizado como é hoje. A festa começou na década de 1920 de forma simples, ocupando ruas, praças e clubes com blocos carnavalescos, marchinhas e fantasias improvisadas.
Foi somente em 1955 que surgiu a Princesa Isabel, considerada a primeira escola de samba de Batatais.
Segundo o vice-presidente do Núcleo de Aprendizagem Princesa Isabel (Nuapi), Gabriel Oliveira, a escola foi fundada em um clube criado por pessoas negras e nasceu em um contexto de exclusão social.
"Essa escola, ela nasceu de dentro de um clube criado por pessoas negras, para pessoas negras, em uma época que os negros não eram bem-vindos em outros clubes. Então, em 1955, ela desfila pela primeira vez como escola de samba, com outros blocos que já havia na cidade e faziam parte mais da elite".
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Apresentação da Escola de Samba Princesa Isabel no primeiro Carnaval de Batatais
Nuapi
Após esse primeiro desfile, as manifestações ganharam estrutura e identidade própria, abrindo caminho para o surgimento das escolas de samba, inspiradas nos grandes carnavais do país.
Stella, Riachuelo, UE4, a escola da Jumil e, na década de 1970, a Castelo, que se tornaria a maior campeã da história do Carnaval batataense, também preservavam características locais.
Ascensão e momentos marcantes
Com a criação das primeiras agremiações, o Carnaval de Batatais assumiu um formato competitivo. Na década de 1980, o crescimento do evento trouxe maior visibilidade regional e passou a atrair visitantes de cidades vizinhas. Comércio, rede hoteleira e serviços foram beneficiados em Batatais.
Esse período também foi marcado pela consolidação de escolas que seguem até hoje na disputa. É o caso da Acadêmicos do Samba, fundada em 1979, e tricampeã durante a década de 1980.
Um dos membros da diretoria, presidente da Acadêmicos no último título e radialista, Osvaldo Batista, conhecido como Compadre Batista, relembra o período campeão e a conquista de 1989.
“Eu estou nos três títulos da Acadêmicos, dois eu não era presidente, mas da diretoria, e, no último, eu fui o presidente. Em 1989, eu tinha 1.150 pessoas na escola, o enredo daquele carnaval foi 'Clara Nunes' e eu consegui liderar os companheiros, os amigos, me envolvi com eles. E foi aí que nós crescemos a Acadêmicos e colocamos a terceira estrela no pavilhão da escola”.
Clara Nunes foi o enredo de Carnaval da Acadêmicos do Samba em 1989
Reprodução/EPTV
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Outro momento histórico da escola aconteceu em 1996, onde a Acadêmicos do Samba trouxe para desfilar o Boi Garantido, marca registrada do popular Festival de Parintins, no Amazonas.
Gabriel Oliveira conta que, na época, a escola enfrentou concorrência e o boi chegou diretamente de uma apresentação de Paris para desfilar no Carnaval de Batatais.
"Eles estavam fazendo um show em Paris e eles chegaram direto no Brasil para desfilar na Acadêmicos. Nesse mesmo ano inclusive, a X-9 Paulistana, em São Paulo, estava fazendo um enredo sobre a Amazônia e eles queriam a presença do boi lá. Só que aí, como o desfile era no mesmo dia e eles já tinham combinado com a gente antes, eles desfilaram em Batatais e não desfilaram em São Paulo".
Boi Garantido durante apresentação da Acadêmicos do Samba em Batatais
Nuapi
Um Carnaval que mudou de endereço
Com o crescimento ao longo dos anos, o Carnaval de Batatais percorreu diferentes pontos da cidade. Os primeiros desfiles aconteceram na região central, próximo à Praça da Matriz. Depois, passaram por avenidas como a Nove de Julho, a Quatorze de Março e a Moacir Dias de Moraes.
Com a conquista do título de Estância Turística em 1994, o nível da festa precisou acompanhar a nova realidade do município. No final dos anos 1990 e no início dos anos 2000, foi idealizada e construída a estrutura do sambódromo, que passou a concentrar os desfiles a partir de 2001.
Na época, Osvaldo Batista ocupava o cargo de secretário de Turismo e viu a necessidade de estruturação.
“Eu vou para a Secretaria de Turismo e eu entendi que, como tinha esse movimento carnavalesco e cultural de Batatais, nós não tínhamos suporte. Então, eu comecei o processo da instalação da Estância Turística de Batatais e, graças a Deus, eu fui muito feliz em 94”.
Imagem aérea do sambódromo de Batatais (SP)
Reprodução: EPTV
Pausas e instabilidades
Apesar da consolidação, a história do Carnaval de Batatais não foi marcada apenas por crescimento. Durante a construção do sambódromo, entre 1999 e 2001, os recursos da Estância Turística foram direcionados à obra, o que interrompeu temporariamente os desfiles.
Mais recentemente, o Carnaval deixou de acontecer em 2015, retornou em 2018 e voltou a ser interrompido até a retomada em 2024. As pausas foram atribuídas à falta de investimentos e, posteriormente, à pandemia da Covid, que impossibilitou a realização do evento.
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Novos ares
Nos últimos anos, o Carnaval de Batatais passou a incorporar novas formas de celebração. Além dos desfiles competitivos, blocos de rua, shows musicais e a eleição da corte carnavalesca passaram a integrar a programação.
Esse novo formato ganhou o nome de Batatais Folia e trouxe uma proposta de entretenimento que combinou tradição e modernização. Nesse momento, a festa passou a ocupar não apenas o sambódromo do desfile, mas também diferentes pontos da cidade.
A ampliação da programação também contribuiu para fortalecer o turismo e impulsionar a economia local, consolidando o evento como um dos principais do calendário cultural do município.
Unidos do Morro, no carnaval 2024 em Batatais, SP
Joel Silva/ Prefeitura de Batatais
Uma tradição que resiste
Mais do que o espetáculo na avenida, o Carnaval de Batatais mantém um papel social ativo ao longo de todo o ano na cidade. A festa ultrapassa os dias de desfile e se consolida como espaço permanente de convivência, formação e pertencimento.
De acordo com Gabriel Oliveira, as escolas de samba seguem cumprindo uma função que vai além do entretenimento, atuando como pontes entre a comunidade e a cultura popular.
"As escolas têm esse papel social mais forte com atividades que acontecem durante o ano todo. Então, a maioria das escolas hoje tem escolinha de bateria para as crianças e isso é uma forma de tirar a criança da rua, de ter uma atividade ali no final de semana. Eu acho que o papel da escola de samba hoje tem sido cumprido, que é o de fazer essa ponte da escola com a comunidade e preparar o futuro do Carnaval da cidade".
Unidos do Morro, no carnaval 2024 em Batatais, SP
Joel Silva/ Prefeitura de Batatais
Para Compadre Batista, o Carnaval é ainda mais profundo e se tornou parte inseparável da própria história de vida.
"Eu nasci numa casa de um homem que não executava nenhum instrumento: Sebastião Batista, que tinha apelido de chato. Mas ele tinha todos os instrumentos dentro de casa e eu nasci e vivi música. Então, eu não vivo, vamos dizer assim, sem Carnaval. Eu levanto cedo e eu penso no Carnaval, vou dormir e eu penso no Carnaval", afirma.
Batista também é idealizador e criador do projeto Casa do Samba, que realiza a cobertura do Carnaval de Batatais anualmente e festas nos finais de semana nas quadras das escolas de samba da cidade. Para ele, o Carnaval e o projeto são momentos de paz e foram criados para manter a cultura de uma comunidade.
"Quando eu vejo um desfile com aquela multidão, os programas Casa do Samba, você vê essa multidão, todos os membros de todas as escolas cantando o samba-enredo das outras escolas, é com isso que eu fico muito feliz. Nós vemos que estamos no caminho certo".
Batista e a filha Melissa Toledo no Carnaval de Batatais
Difusora Batatais
*Sob supervisão de Thaisa Figueiredo
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