História preservada: Icó, no interior do Ceará, tem mais de 400 imóveis dos séculos 18 e 19 tombados
17/06/2026
(Foto: Reprodução) Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Icó, no Ceará.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
Quem visita pela primeira vez a cidade de Icó, no Centro-Sul do Ceará, se encanta pelo patrimônio histórico e arquitetônico preservado. São mais de 400 imóveis dos séculos 18 e 19 tombados no Conjunto Arquitetônico e Urbanístico da cidade, primeiro do Estado a ser tombado pelo Iphan em 1998. Quase 30 anos depois, o município ainda é considerado um dos mais representativos quando se fala em arquitetura tradicional do Ceará.
A cidade é uma das maiores do Centro-Sul cearense, com cerca de 62 mil habitantes. Passou por tempos difíceis no final do século 19, em decorrência da crise da produção algodoeira e da grave seca que assolou a região entre 1877 e 1879. Momentos de instabilidade socioeconômica intercalados por períodos de desenvolvimento.
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Formada por portugueses e franceses, Icó herdou uma rica arquitetura no estilo barroco, mas com características próprias da região Nordeste e com linhas do neoclássico francês. O povoado que deu origem à cidade surgiu da ocupação de sesmarias (lotes de terras doados) ao longo do Rio Jaguaribe, com a instalação de currais de gado e moradias.
Essas terras foram divididas e formaram o aldeamento de Icó de Baixo, que desapareceu devido a constantes inundações, e o aldeamento de Cima, ou Arraial dos Montes, que se desenvolveu e deu origem, mais tarde, à Vila de Icó em 1726.
Era ponto estratégico do cruzamento de três importantes vias de comunicação colonial: a Estrada Geral do Jaguaribe (que ligava o Ceará a Pernambuco), a Estrada das Boiadas (que ligava o Ceará ao Piauí e à Paraíba) e a Estrada Nova das Boiadas (que partia de Sobral e ligava o Ceará a Pernambuco e à Paraíba). Em 04 de maio de 1738, a vila foi emancipada e se tornou cidade. 288 anos de história.
Legislação urbanística
Icó também se destaca como um dos primeiros municípios a ter legislação urbanística no país. Uma Resolução Provincial de 1850 inseriu na cidade um plano determinando um novo perímetro urbano.
"O plano urbanístico de Icó foi criado através de uma carta régia que designava todo o traçado urbanístico, dos arruamentos, logradouros públicos, das quadras. Isso traz uma riqueza muito grande porque se comunica com o que a Europa trazia de urbanização, e também da ocupação colonial da coroa portuguesa, no processo de interiorização e a mudança do processo econômico", conta o arquiteto Márcio Rodrigo Coelho de Carvalho.
"É um traçado monumental, uma arquitetura que se mantém preservada, íntegra. Talvez seja o mais preservado do Ceará, além de ser o maior entre todas as cidades. É um conjunto que expressa a arquitetura civil, o modo de morar das famílias, também a hierarquia da economia que foi colocada a partir da criação do gado", complementa.
De acordo com dados do Iphan, todo o conjunto arquitetônico de Icó é composto por imóveis com características luso-brasileiras, coloniais, ecléticas, art-déco e até mesmo neoclássicas e rococó, além da arquitetura contemporânea. Tudo adaptado ao modo de vida do sertão, com o uso de formas simplificadas e de materiais locais.
Não é difícil para quem passeia pelo centro da cidade perceber muitas dessas características. A variedade chama a atenção: fileiras de casas que compõem conjuntos únicos, com telhados de mesma altura e mesma inclinação, sobrados, portas e janelas com alturas alinhadas; mesmo sem conhecimento sobre arquitetura, a beleza da arte encanta qualquer pessoa.
Abaixo conheça um pouco mais do espaço arquitetônico central.
Largo do Theberge e Teatro das Ribeiras
Largo do Théberge, considerado o maior largo da América Latina, medindo 955 metros de extensão.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
De acordo com pesquisadores, Icó foi planejada por portugueses para ter três ruas: a da corte ou da elite, que era de moradia; a rua de serviço (dos escravizados); e a rua Larga, a do comércio, onde se encontravam os antigos negociantes, vindos de diversas localidades para vender e comprar mercadorias.
Ao longo do tempo, algumas mudanças. A rua do comércio se transformou no Largo do Theberge - a maior intervenção arquitetônica realizada na cidade no século 20. É também considerado o maior largo da América Latina, medindo 955 metros de extensão.
Essa é a terceira versão do espaço que continua com manifestações culturais, religiosas e profanas. Há grande movimentação à noite, com praça de alimentação e outras atividades.
A grande praça é cercada pelas igrejas de Nossa Senhora da Expectação e do Senhor do Bonfim, pela antiga Casa de Câmara e Cadeia, pelo Teatro da Ribeira dos Icós e pelos sobrados do Barão do Crato e do Canela Preta, além de outras edificações importantes.
Casa de Câmara e Cadeia, onde funcionavam a câmara municipal e a cadeia pública. Neste local foi planejada a Confederação do Equador. Bárbara de Alencar ficou presa no local. Hoje funcionam a secretaria de educação do município.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
O largo recebeu o nome de uma das figuras mais importantes para a história da cidade, Pierre François Théberge, mais conhecido como Pedro Théberge, médico e historiador francês que chegou a Icó em 1848. A esposa era musicista, e a família amante da arte.
Uma prova disso é a construção do primeiro teatro do Ceará: o Teatro das Ribeiras, em 1860. O equipamento tem um significado muito grande para a sociedade icoense. Com estilo neoclássico e detalhes paladianos, o teatro foi palco para muitas companhias de todo o Brasil. Um espaço que emociona moradores e visitantes.
"Personalidades como Gilberto Gil e Ariano Suassuna também estiveram aqui. Ariano chegou a dizer que se tivesse qualquer trabalho sobre a vida dele, se o Icó não estivesse incluído, perderia o sentido. Pra gente foi algo fantástico. Quase todos os finais de semana o teatro recebe apresentações. Está passando por uma intervenção, mas logo deve ser entregue novamente à sociedade", conta emocionado o pesquisador e secretário adjunto de cultura, Cláudio Pereira da Silva.
Primeiro teatro do Ceará: o Teatro das Ribeiras, criado em 1860, em Icó.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
Ocupação dos prédios históricos
Santuário Senhor do Bonfim, local de peregrinação e devoção ao Cristo Crucificado, em Icó, no Ceará.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
Uma parte dos imóveis históricos da cidade é ocupada por órgãos públicos municipais. A Casa de Câmara e Cadeia, antigo prédio administrativo e judiciário e símbolo do poder colonial, é um dos equipamentos mais significativos para a história local. No espaço funcionavam a câmara municipal e a cadeia pública.
Neste mesmo local foi planejada a Confederação do Equador em 1824. Bárbara de Alencar, revolucionária pernambucana, foi uma das presas ilustres dessa cadeia.
"Muitos revolucionários estiveram na cidade, como Tristão Gonçalves, filho de Bárbara de Alencar, uma das revolucionárias do movimento. Ela instigou o filho a vir até Icó buscar adeptos da revolução. Inclusive muitas mulheres icoenses participaram da ação. Foi um movimento libertário: de viver com as próprias pernas. Outro ponto importante da história é que Icó se tornou capital nesse período, por cerca de 3 meses", afirma o pesquisador Cláudio Pereira da Silva. É neste espaço que hoje funciona a secretaria de educação.
Outro prédio imponente é o Palácio da Alforria. Marco da luta pela liberdade das pessoas escravizadas no município e na região. Foi neste prédio que nasceu Antônio Pinto Nogueira Accioly, que governou o Ceará por três vezes, entre 1896 e 1912.
Ganhou o nome de Palácio da Alforria porque, segundo historiadores locais, em 25 de março de 1883, assinou-se a carta de libertação dos escravizados icoenses, um dos marcos da história cearense. O antigo palácio hoje é ocupado pela Prefeitura Municipal.
"A ocupação desses casarões mantém uma vida cotidiana pulsante vinculada às necessidades do icoense. É um dos propósitos do patrimônio cultural: que exista para manter esses laços afetivos com quem reside, manter a cidade viva pelos icoenses e para eles", reforça o arquiteto Márcio Rodrigo Coelho de Carvalho.
Na Casa de Cultura Mariinha Graça funcionam a secretaria de Cultura do município e o escritório técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN.
Na Casa de Cultura Mariinha Graça funcionam a secretaria de Cultura do município e o escritório técnico do Iphan.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
A educação patrimonial também está na grade curricular das escolas do município. "As escolas têm rodas de conversas, palestras. Os alunos visitam os patrimônios para aflorar esse sentimento de pertencimento no coração, para que sejam cidadãos protetores do patrimônio histórico", afirma o secretário de cultura municipal, Renan Moreira.
Em outro ponto estratégico do centro histórico está o sobrado do Barão do Crato; a linda arquitetura se destaca. Uma construção imponente que reflete a riqueza e a influência das elites do período imperial na cidade. Pertenceu a Bernardo Duarte Brandão, Barão do Crato. Hoje, além de residência, o sobrado abriga dois comércios.
Mercado Público
Mercado Público de Icó. Ficou pronto em 1873 e foi restaurado pela última vez em 1998.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
Os mercados públicos são espaços sociais e culturais, que carregam traços das identidades locais. Em Icó não é diferente. O mercado ficou pronto em 1873 e foi restaurado pela última vez em 1998 . Hoje ainda abriga comerciantes que buscam manter o espaço em meio às transformações socioeconômicas. Eles vendem os mais diversos produtos.
Quem visita o mercado sente o contraste e a nostalgia de ver a união entre o passado e o presente, o mercado cercado por comércios contemporâneos. Vê também a beleza que é a função artística do espaço, de resistir ao tempo.
Cidade de Nossa Senhora da Expectação e do Senhor do Bonfim
Igreja Matriz de Nossa Senhora da da Expectação em Icó, no interior do Ceará.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
A Capela de Nossa Senhora da Expectação foi erguida quase 30 anos antes de Icó se tornar cidade. Em 1722, transformou-se em Paróquia de Nossa Senhora da Expectação com grande valor histórico e religioso.
Com traços da arquitetura barroca, o espaço interno sofreu algumas alterações, como a abertura de arcadas para os corredores laterais. Mas a igreja ainda conserva o sacrário original em talha, a prataria e imagens antigas.
Celebrada em dezembro, Nossa Senhora da Expectação recebe fiéis de várias cidades do interior do Estado.
Mas outro templo religioso também atrai centenas de visitantes . É o Santuário Senhor do Bonfim, local de peregrinação e devoção ao Cristo Crucificado. Construído pelo primeiro capitão-mor de ordenanças, Bento da Silva Oliveira, foi um pedido da esposa do capitão: pagamento de um voto pela cura de um familiar querido.
"Apesar do Senhor do Bonfim não ser a igreja matriz da cidade, aqui é o lugar onde as pessoas se achegam mais, têm mais um carinho, uma devoção maior à imagem que veio da Bahia. Ela ficava em um oratório fechado que só abria nas sextas-feiras para o culto público. Então, durante a semana, criava-se uma expectativa muito grande para ver", conta o pároco da Nossa Senhora da Expectação e Reitor do Santuário do Senhor do Bonfim, Yedo Ian.
"Além da fé do povo, a própria espiritualidade do Senhor do Bonfim nos envolve. Quando celebro, não vejo a hora passar. Cada pessoa que chega aqui se transforma, chora, coloca para fora aquilo que está passando; eles encontram aqui um lugar de expressão profunda de espiritualidade, é algo celestial. Nas festividades de Senhor do Bonfim, de 22 de dezembro a 1º de janeiro, tem uma participação média de 3 a 4 mil pessoas."
Claecy e Gustavo, fizeram família e patrimônio em Icó, em adoração ao Senhor do Bonfim.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
Fé que envolve quem chega a Icó, seja para visitar ou morar. A vendedora Claecy Vieira saiu da cidade natal, Acopiara, também no centro-sul do Ceará, aos 18 anos, na esperança de conseguir uma oportunidade no mercado de trabalho. Vinte anos depois, com marido e dois filhos, relata emocionada sobre tudo o que construiu com dedicação e devoção.
"Já me sinto icoense. A gente aprende a gostar, a ter uma fé, uma devoção no Senhor do Bonfim. Ao mesmo tempo que a gente vai recebendo, vai com fé agradecendo, sempre com muita dedicação, aos pés dele. É muito desafiador sair do seu lugar muito jovem e ter construído tudo isso, é uma bênção muito grande. Não tenho nem palavras para descrever, é um sentimento de gratidão", afirma Claecy.
O esposo também não é natural da cidade. Veio de mais longe, de Parnaíba, no Piauí, há 15 anos. "Fui acolhido pela cidade. A gente é de uma família bastante religiosa e quando eu cheguei aqui eu vi que o povo era bastante fervoroso no catolicismo. Hoje construí a minha família e conseguimos a casa própria e viemos agradecer. Meu motivo é sempre de agradecimento", reforça o radialista Gustavo Veras.
A imagem de Senhor do Bonfim só sai do altar em 01 de janeiro de cada ano. Mas um fato curioso é que ela foi retirada três vezes ao longo dos anos por situações distintas.
"Na primeira vez, numa cheia imensa no Rio Salgado. Os ribeirinhos se sentiram ameaçados e os fiéis na porta do santuário suplicaram para as águas baixarem. O padre da época resolveu levar a imagem até o leito do rio e colocar os pés da imagem na água e, segundo os relatos, depois de algum tempo, o rio começou a acalmar e a baixar", narra o pesquisador Cláudio Pereira da Silva.
"A segunda vez foi na pandemia da covid. O padre percorreu com a imagem pelas ruas da cidade levando a bênção e pedido de proteção aos moradores. E a terceira vez para que a imagem fosse escaneada; uma cópia está sendo feita para ser colocada no Horto do Senhor do Bonfim que está em construção".
Fé em extensão: igrejas guardam riqueza arquitetônica e cultural
Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição (Igreja do Monte), em Icó, no Ceará.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
Mais de 81% dos moradores da cidade são católicos, de acordo com dados do IBGE. A fé se estende também para outras igrejas históricas:
Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição (Igreja do Monte): Templo que atrai pela beleza e pelo local onde foi construído, sobre um outeiro, que era uma tradição católica na construção de santuários marianos. Do alto vislumbra-se a cidade. É composta por uma imponente escadaria em tijoleira, onde muitas pessoas pagam promessas. Foi edificada por volta do ano de 1750, durante o Brasil Colônia. Ao lado foi construído um cemitério.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos: No Brasil colonial a população negra não tinha acesso às igrejas que existiam na cidade: a Matriz e a do Monte. Mesmo durante o período em que estavam sendo escravizados, resolveram construir o templo religioso como símbolo de devoção, resistência, fé e identidade cultural. É a sede da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário.
Casarões e casas habitados: identificação e pertencimento
Casas e sobrados em Icó, no Ceará, em fevereiro de 1962.
IBGE/Reprodução
Ao passear pelas ruas de Icó, é possível perceber a união entre o passado e o presente. Casas e casarões habitados são preservados. A artesã Vanusa Vitorino da Silva nasceu na zona rural de Icó e herdou da família do esposo uma casa tombada pelo Iphan. Mora nessa residência há mais de 30 anos. A moradia foi reformada com autorização do órgão federal. Para ela, é um prazer ter um lar preservado.
"A casa era bem antiga, a gente modernizou. E a rua aqui é maravilhosa. Quase 30 nos que moro aqui nessa casa, ela está tombada há muitos anos. Tudo o que a gente vai fazer, restauração, a gente pede autorização pro Iphan. Eles nos atendem com muita receptividade, ajudam bastante, dizem como é, tudo o que vamos fazer procuramos o escritório, seja pintura ou reforma", comenta a artesã.
Uma cidade que tem consciência da sua história e do que precisa preservar. "Os moradores têm a plena consciência dos tombamentos. Eles preservam até por iniciativa própria e mantêm os imóveis pintados, bem apresentados. É visível para quem visita as ruas da cidade. É um orgulho que se manifesta através da preservação desse bem. E as famílias se manterem nesses casarões é uma evidência desse laço de pertencimento e de identificação com o lugar", reforça o arquiteto Márcio Rodrigo Coelho de Carvalho.
A artesã Vanusa Vitorino da Silva mora nesta casa, tombada pelo Iphan, há mais de 30 anos.
Claudiana Mourato/TVM Cariri
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