Irã consolida controle sobre Ormuz com postos em ilhas, acordos diplomáticos — e às vezes ‘taxas’
20/05/2026
(Foto: Reprodução) Imagem de drone mostra o petroleiro Agios Fanourios I, com bandeira de Malta, que navegou pelo Estreito de Ormuz e chegou às águas territoriais do Iraque, próximo a Basra, Iraque, em 17 de abril de 2026.
REUTERS/Mohammed Aty/Foto de Arquivo
A tripulação do petroleiro reuniu coragem e navegou cuidadosamente por uma rota determinada pelo Irã, seguindo rente à costa e manobrando a enorme embarcação entre postos de controle em ilhas pelo Estreito de Hormuz.
O Agios Fanourios I, de 330 metros de comprimento, carregado com petróleo bruto iraquiano e com destino ao Vietnã, estava parado na costa de Dubai desde o fim de abril. Mas, em 10 de maio, partiu rumo ao estreito após um acordo direto com o Irã supervisionado pelo primeiro-ministro do Iraque.
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As ordens iranianas ao petroleiro faziam parte de um mecanismo complexo e em múltiplas camadas que o país implantou para liberar embarcações no Estreito de Ormuz.
Com o Irã agora no controle de fato da passagem, o sistema pode envolver acordos entre governos, uma rigorosa triagem por parte das autoridades iranianas e, às vezes, cobranças em troca de passagem segura, apurou a Reuters.
No Vietnã, Iraque, Grécia e outros países, o trajeto do navio era acompanhado de perto, inclusive por duas pessoas entrevistadas pela Reuters. Periodicamente, o transponder era desligado, mas o Agios Fanourios I seguia navegando. Não muito longe dali, no mesmo dia, outro navio foi atingido por um projétil que causou um pequeno incêndio, segundo uma agência britânica de segurança marítima.
No fim do dia 10 de maio, os sistemas voltaram a mostrar o ícone do Agios Fanourios I. Mas, ao passar pela Ilha de Ormuz, o navio foi parado por lanchas rápidas da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), segundo uma autoridade iraniana.
Os combatentes da IRGC que patrulhavam o estreito — e que inicialmente haviam autorizado a passagem — ordenaram então que o navio parasse. A autoridade iraniana disse que havia suspeita de carga contrabandeada e que os militares queriam inspecionar a embarcação.
Várias horas depois, o petroleiro recebeu autorização iraniana para continuar viagem, transformando um trajeto que normalmente leva cinco horas em uma travessia de dois dias.
“Quando fomos informados de que o Agios havia passado por Ormuz, respiramos aliviados”, disse uma das pessoas que monitoravam a viagem.
Nenhum pagamento foi feito, segundo a empresa gestora do navio, a Eastern Mediterranean Shipping, e seis pessoas com conhecimento da travessia.
“Temos motivos para acreditar que os iranianos fizeram vista grossa para a passagem do Agios Fanourios I após pressão do Iraque e do Vietnã”, escreveu Konstantinos Sakellaridis, gerente de operações da Eastern Mediterranean Shipping, em resposta a perguntas da Reuters.
O governo iraniano não respondeu a um pedido de comentário sobre o novo mecanismo ou sobre a viagem do Agios Fanourios I.
O controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz — passagem por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial — lançou a economia global em turbulência.
Para mostrar como o Irã vem consolidando o domínio sobre esse ponto estratégico nas últimas semanas, a Reuters entrevistou 20 pessoas com conhecimento do mecanismo, incluindo fontes do setor marítimo europeu e asiático, além de autoridades iranianas e iraquianas; analisou documentos iranianos relacionados ao processo de triagem; e rastreou movimentos de navios.
Em conjunto, as informações oferecem uma visão rara de como funciona o esquema iraniano, no qual a poderosa Guarda Revolucionária desempenha papel central.
Todas as fontes pediram anonimato devido à sensibilidade do assunto. Alguns detalhes da viagem do Agios Fanourios I não puderam ser verificados de forma independente, mas coincidem com relatos de outras autoridades marítimas envolvidas na gestão e navegação da mesma rota, tanto para cargueiros quanto para petroleiros.
Taxas de segurança e navegação
Embarcações navegam pelo Estreito de Ormuz, Musandam, Omã, 20 de maio de 2026.
REUTERS/Stringer
No início de maio, cerca de 1.500 embarcações com aproximadamente 22.500 marinheiros estavam presas no Golfo, segundo os militares dos EUA.
O gargalo marítimo decorre da capacidade do Irã de atacar navios no estreito a partir da costa. O domínio iraniano transformou o conflito no que o chefe da Agência Internacional de Energia descreveu como a pior crise energética da história. A Marinha dos EUA respondeu impondo seu próprio bloqueio a navios e cargas iranianas em um cordão de segurança fora do estreito.
Apenas um pequeno número de embarcações conseguiu atravessar a hidrovia. Entre 18 de abril e 6 de maio, menos de 60 navios passaram pelo estreito, segundo análise não publicada da empresa norte-americana SynMax Intelligence. Antes da guerra, entre 120 e 140 embarcações cruzavam o estreito diariamente, cerca da metade delas petroleiros.
Cidadãos americanos estão proibidos de realizar transações com o governo iraniano pelas leis de sanções dos EUA. Estrangeiros também podem enfrentar “sanções secundárias” por negociarem com entidades iranianas. Além disso, muitos governos ocidentais mantêm suas próprias sanções e restrições contra o Irã.
O Departamento do Tesouro dos EUA divulgou um comunicado em 1º de maio alertando “sobre os riscos de sanções decorrentes desses pagamentos ou da solicitação de garantias ao regime iraniano para passagem segura”.
O novo mecanismo iraniano inclui um sistema em camadas que dá preferência a navios ligados a aliados como Rússia e China, seguidos por países como Índia e Paquistão, que mantêm relações próximas com Teerã, além de acordos diretos entre governos que permitem a passagem de embarcações como o Agios Fanourios I, segundo a Reuters.
“O departamento está preparado para agir contra qualquer empresa estrangeira que apoie o comércio ilícito iraniano”, afirmou o Departamento do Tesouro dos EUA em resposta às perguntas da Reuters.
A Reuters não conseguiu determinar de forma independente quantas embarcações já utilizaram o esquema. O Irã afirmou que navios ligados aos Estados Unidos ou a Israel — que lançou ataques aéreos contra o Irã no fim de fevereiro — não poderão atravessar o estreito.
Duas fontes do setor marítimo europeu disseram que algumas embarcações sem cobertura de acordos entre governos estão pagando às autoridades iranianas mais de US$ 150 mil para garantir passagem segura pelo Estreito de Ormuz.
Navios às vezes são cobrados por taxas de segurança e navegação, que variam conforme a carga, disseram à Reuters duas autoridades iranianas de alto escalão. Nenhuma delas informou valores específicos, mas uma afirmou que “nem todos os países estão sujeitos a essas cobranças”.
A Reuters não conseguiu confirmar independentemente os valores cobrados ou o total arrecadado pelo Irã.
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‘O novo normal'
Pelo direito marítimo internacional, governos não podem cobrar por passagem segura em um estreito. Mas podem existir taxas associadas a segurança ou serviços, desde que navios de todos os países sejam tratados igualmente.
Esses pagamentos e os nomes dos armadores que pagaram autoridades iranianas para retirar seus navios da região são segredos bem guardados, já que tais transações violariam as sanções econômicas dos EUA contra o governo iraniano. A Reuters não conseguiu determinar como o dinheiro foi transferido nem para qual entidade iraniana.
Além das possíveis cobranças, empresas que realizarem pagamentos também perderiam cobertura de seguro, já que os recursos poderiam beneficiar a IRGC, considerada organização terrorista internacional, segundo dois especialistas em seguros marítimos.
A disposição de armadores em negociar diretamente com o Irã, apesar dos riscos, mostra o grau de controle da República Islâmica sobre o estreito, disse Danny Citrinowicz, ex-oficial de inteligência israelense especializado em Irã.
“O estreito será fechado ou aberto apenas com aprovação do regime iraniano”, afirmou Citrinowicz, atualmente ligado ao Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel. “Alguns passarão por alianças políticas, outros terão que pagar, outros serão barrados. Esse é o novo normal.”
Em resposta às conclusões da Reuters sobre o novo mecanismo iraniano de controle, o Ministério das Relações Exteriores da China pediu que Ormuz permaneça aberto e disse estar preocupado com “os futuros arranjos para o estreito”.
“Esses arranjos devem estar em conformidade com o direito e as práticas internacionais, levando em conta as legítimas preocupações de segurança dos Estados costeiros e as demandas legítimas dos países da região e da comunidade internacional”, afirmou o ministério chinês.
Verificação de vínculos
Navios comerciais no Estreito de Ormuz próximo à costa do Omã em maio de 2026.
REUTERS/Stringer
Fora dos acordos entre governos, o processo para obter autorização iraniana envolve uma rigorosa triagem conduzida pela Guarda Revolucionária Islâmica, segundo três fontes iranianas e uma fonte europeia do setor marítimo.
A IRGC analisa um chamado “documento de afiliação” fornecido pelo proprietário ou operador do navio e enviado por meio de um intermediário.
“A verificação serve para identificar se o navio tem qualquer ligação com os EUA ou Israel”, disse a fonte europeia. O processo leva cerca de uma semana e pode incluir inspeções físicas na embarcação.
A Guarda Revolucionária exige que os armadores informem detalhes como valor da carga, bandeira do navio, origem e destino, proprietário registrado, empresa gestora e nacionalidades da tripulação, segundo documentos analisados pela Reuters enviados a fontes do setor marítimo pela Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, criada recentemente para aprovar e taxar travessias.
A triagem é conduzida por instituições estatais iranianas, incluindo a Organização de Portos e Marítima, o Ministério da Indústria, Minas e Comércio, a organização nacional de navegação e o Conselho Supremo de Segurança Nacional, segundo três autoridades iranianas.
Os acordos bilaterais incluem uma etapa adicional: os países entram em contato com o chanceler iraniano para solicitar autorização. O pedido é então encaminhado ao Conselho Supremo de Segurança Nacional, que inclui a IRGC e representantes do líder supremo Mojtaba Khamenei, disse uma das autoridades.
“Uma decisão é então tomada e comunicada aos órgãos competentes, incluindo a IRGC”, afirmou a autoridade. Segundo ela, a Guarda fornece as coordenadas e instruções necessárias para a travessia segura.
No caso do Agios Fanourios I, o governo iraquiano trabalhou ao lado da SOMO, estatal responsável pela comercialização do petróleo do país, para fechar um acordo com o Irã sob supervisão do então primeiro-ministro Mohammed Shia al-Sudani, segundo duas fontes.
Três autoridades do Ministério do Petróleo do Iraque disseram que enviaram aos iranianos o manifesto de carga e as informações da tripulação antes da passagem.
O governo iraquiano não respondeu aos pedidos de comentário.
Outros países negociaram mecanismos diferentes. Um deles é a Índia, que importa cerca de 90% do petróleo que consome e cerca de 50% do gás, grande parte passando por Ormuz.
Nova Délhi utiliza sua embaixada em Teerã para intermediar contatos com autoridades iranianas, incluindo a IRGC e a Marinha iraniana, segundo uma autoridade do Ministério de Navegação da Índia.
“Depois que tudo é verificado, o capitão recebe uma rota a seguir e o navio deixa a região com orientação da Marinha iraniana. Os capitães são instruídos a seguir estritamente o trajeto”, disse a autoridade. Os navios também são orientados a desligar os transponders e evitar comunicações via satélite.
Após a autorização iraniana, a Marinha indiana entra em contato diretamente com os comandantes dos navios de bandeira indiana no Golfo e fornece coordenadas, segundo uma fonte do setor marítimo indiano.
“A Marinha indiana também nos disse que, se os iranianos mandarem parar, você deve parar. Se mandarem seguir, você deve seguir”, afirmou a fonte. “E temos seguido essas instruções.”
Até agora, 13 embarcações de bandeira indiana atravessaram Ormuz, enquanto outras 13 permanecem presas a oeste do estreito, informou o Ministério da Navegação da Índia em 14 de maio.
Travessia tensionada
Para muitos navios, a rota de saída do Golfo e passagem por Ormuz envolve cruzar múltiplos pontos de controle iranianos, frequentemente operados por homens armados, segundo fontes do setor marítimo e iranianos.
O Agios Fanourios I passou por postos militares iranianos em Abu Musa, Grande Tunb e Larak. A Reuters verificou as coordenadas com dados públicos de localização do navio e fontes familiarizadas com viagens semelhantes.
Ao se aproximar da Ilha de Ormuz, na entrada do estreito, o navio foi brevemente parado por lanchas rápidas da IRGC, segundo a autoridade iraniana.
A suspeita de contrabando se mostrou incorreta e, após um curto período de confusão e inspeção, o navio seguiu viagem.
Uma fonte do setor marítimo indiano disse que falhas semelhantes de comunicação provavelmente causaram ataques contra dois navios indianos que tentavam atravessar Ormuz no mês passado. Os incidentes assustaram marinheiros indianos presos na região.
“Esses navios não têm blindagem nem nada do tipo”, afirmou a fonte. “As balas atravessam.” Segundo ele, os atiradores miram os alojamentos da tripulação: “Eles não podem atirar nos tanques porque transportam líquidos inflamáveis.”
Um marinheiro indiano que conseguiu atravessar o estreito disse que o navio aguardou no Golfo até que sua empresa obtivesse autorização da IRGC. Em seguida, foi instruído a se aproximar da Ilha de Larak, onde a Marinha iraniana estabeleceu contato.
As autoridades navais ordenaram que o capitão exibisse a bandeira do navio e fornecesse detalhes da embarcação antes de iniciarem conversas com a empresa. Os iranianos perguntavam repetidamente sobre a nacionalidade da tripulação.
“Depois de algumas horas, o capitão recebeu uma rota da IRGC”, disse o marinheiro. Escoltado por barcos menores da Marinha iraniana, o navio foi instruído a navegar com cuidado por medo de minas marítimas.
“Foi uma cena assustadora”, disse ele. “Nem nos meus sonhos mais loucos consigo imaginar voltar ao mar durante uma guerra.”
Mas mesmo para os navios que conseguem atravessar Ormuz, a provação não necessariamente termina ali.
Um dia após deixar águas iranianas, o Agios Fanourios I foi interceptado pelo bloqueio da Marinha dos EUA. Durante seis dias, o petroleiro ficou derivando enquanto militares americanos analisavam sua documentação.
“As forças americanas instruíram a embarcação de bandeira maltesa a retornar como parte da aplicação do bloqueio em vigor”, afirmou o capitão Tim Hawkins, porta-voz do Comando Central dos EUA.
Sakellaridis, da Eastern Mediterranean Shipping, afirmou que o Vietnã pressionou os EUA para liberar o navio. Segundo ele, não havia motivo para a embarcação ser parada porque “o navio e a carga não tinham envolvimento iraniano”.
A Reuters não conseguiu determinar quantos outros navios foram retidos pelos americanos desde o início do bloqueio, em 13 de abril.
O Agios Fanourios I foi liberado em 16 de maio, sem explicações. Agora segue para o Vietnã carregando 2 milhões de barris de petróleo bruto.