Por que homens podem desenvolver subtipo mais grave de câncer de sangue
19/01/2026
(Foto: Reprodução) Onco hematologista fala sobre câncer das células plasmáticas (mieloma múltiplo)
Homens não apenas desenvolvem câncer do sangue com mais frequência do que mulheres, como também tendem a receber o diagnóstico em fases mais avançadas da doença. É o que aponta um estudo internacional que analisou pacientes recém-diagnosticados com mieloma múltiplo, um tipo de câncer hematológico que afeta a medula óssea.
A pesquisa, publicada na revista científica Cancer, avaliou dados de 850 pacientes atendidos em um grande centro de referência nos Estados Unidos. Mesmo após ajustes para fatores como idade, raça, renda, escolaridade, índice de massa corporal, tabagismo e consumo de álcool, o sexo masculino permaneceu associado a uma apresentação mais grave da doença.
Na prática, os homens chegaram ao diagnóstico com maior carga tumoral e sinais mais evidentes de que o câncer já havia provocado danos ao organismo.
Mieloma múltiplo é um tipo de câncer do sangue que se origina nas células plasmáticas.
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O que é o mieloma múltiplo
O mieloma múltiplo é um tipo de câncer do sangue que se origina nas células plasmáticas, responsáveis pela produção de anticorpos. Essas células ficam na medula óssea, no interior dos ossos. Quando se tornam cancerígenas, passam a se multiplicar de forma desordenada, comprometendo a produção normal do sangue e causando danos a diferentes órgãos.
Com o avanço da doença, essas células podem provocar lesões nos ossos, anemia, queda da imunidade e alterações nos rins, além de dor óssea intensa e fraturas. Por isso, o mieloma é considerado uma doença sistêmica, que pode afetar várias partes do organismo ao mesmo tempo.
Apesar de ainda não ter cura, o mieloma múltiplo é hoje tratado como doença crônica, com terapias que permitem controlar o câncer por longos períodos e manter qualidade de vida —especialmente quando o diagnóstico é feito de forma precoce.
O que o estudo encontrou
De acordo com a análise, homens, em comparação às mulheres, apresentaram com mais frequência:
estágio mais avançado da doença no momento do diagnóstico;
maior carga tumoral, indicada por níveis mais altos de proteína monoclonal no sangue;
mais lesões ósseas, associadas a dor intensa e risco aumentado de fraturas;
maior comprometimento da função renal, o que pode tornar o tratamento inicial mais complexo.
Segundo os autores, essas diferenças persistiram mesmo quando foram considerados fatores socioeconômicos e comportamentais, o que reforça a hipótese de que o sexo masculino atua como um fator de risco independente.
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Biologia e comportamento podem atuar juntos
Ainda não existe uma explicação única para essas diferenças. Para especialistas ouvidos pelo g1, os dados sugerem que fatores biológicos e comportamentais podem se somar.
“Os homens de fato desenvolvem mieloma múltiplo com um pouco mais de frequência no mundo todo, mas as causas exatas ainda não são totalmente conhecidas”, explica a hematologista Mariana Kerbauy, do Einstein Hospital Israelita .
“Existem hipóteses relacionadas a diferenças hormonais, à resposta do sistema imunológico, à maior exposição a fatores ambientais ao longo da vida e também ao comportamento de procura por atendimento médico.”
O estudo mostra que homens chegam ao diagnóstico com maior carga tumoral, mais lesões ósseas e maior comprometimento renal. Para Kerbauy, isso sugere uma combinação de fatores.
“Provavelmente os dois atuam juntos: uma biologia possivelmente mais agressiva do mieloma nos homens e um atraso maior no diagnóstico, já que eles tendem a minimizar sintomas ou procurar menos atendimento médico”, afirma.
O papel dos hormônios e do sistema imune
Uma das principais linhas de investigação envolve a influência dos hormônios sexuais sobre o sistema imunológico e o comportamento das células tumorais.
Segundo a onco-hematologista Mariana Serpa, do Hospital Sírio-Libanês, estudos experimentais indicam que hormônios masculinos podem interferir em processos como inflamação, reparo do DNA e regulação do ciclo celular.
“Esses mecanismos podem favorecer o surgimento de alterações genéticas associadas a um mieloma mais agressivo já no momento do diagnóstico”, explica.
Já hormônios femininos, como o estrogênio, parecem exercer um efeito mais protetor sobre a resposta imune.
“Isso, sozinho, não explica tudo, mas ajuda a entender por que a incidência e a gravidade são maiores nos homens, não só no mieloma, mas em outros tipos de câncer”, diz.
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Sintomas que merecem atenção
Especialistas alertam que alguns sinais do mieloma múltiplo costumam ser subestimados, especialmente entre homens:
dor óssea persistente, principalmente na coluna ou nas costelas;
cansaço intenso ou perda de disposição sem causa aparente;
fraturas espontâneas ou após traumas leves;
infecções frequentes;
alterações em exames simples, como anemia ou creatinina elevada
“Muitos homens atribuem esses sinais ao estresse, à idade ou ao trabalho físico, o que pode atrasar o diagnóstico”, explica Kerbauy.
Na prática clínica, essa apresentação mais grave se traduz em sintomas mais intensos. Lesões ósseas extensas podem causar dor importante, fraturas espontâneas e perda de mobilidade, enquanto o comprometimento renal torna o tratamento mais complexo desde o início.
Segundo o radioterapeuta Tiago Pereira de Leão, membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia, o estudo ajuda a entender por que muitos homens já chegam com limitações importantes no dia a dia.
“Quando há lesões ósseas mais extensas, o impacto funcional é grande. Esses pacientes podem precisar de intervenções específicas para controle da dor e prevenção de fraturas, além do tratamento sistêmico do câncer”, afirma.
Doença não é exclusiva de idosos
Embora o risco aumente com a idade, o estudo também mostrou que homens mais jovens podem apresentar a doença em estágio avançado. Isso reforça a necessidade de atenção mesmo fora da faixa etária considerada clássica.
“No Brasil, o mieloma ainda é visto como uma doença predominantemente de idosos, mas sabemos que adultos mais jovens também podem desenvolver a doença”, afirma Kerbauy. “Essa percepção precisa ser revista para evitar atrasos no diagnóstico.”
Estudos nacionais indicam, inclusive, que a idade média ao diagnóstico no Brasil é cerca de dez anos menor do que a observada nos Estados Unidos.
E no Brasil?
Apesar de o estudo ter sido realizado nos Estados Unidos, especialistas avaliam que os achados são, em grande parte, aplicáveis à realidade brasileira. As diferenças biológicas entre homens e mulheres são universais, mas fatores como acesso ao sistema de saúde, tempo para realização de exames e desigualdade socioeconômica podem agravar o cenário.
“No Brasil, os homens tendem a procurar menos atendimento preventivo, e os exames podem demorar mais a ser realizados”, diz Kerbauy. “Isso pode fazer com que eles cheguem ainda mais tarde ao diagnóstico.”
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico do mieloma múltiplo envolve exames de sangue e urina para detectar proteínas anormais, exames de imagem —como tomografia ou ressonância— e avaliação da medula óssea. Os principais sintomas incluem dor nos ossos, cansaço intenso, fraturas espontâneas, infecções frequentes e alterações renais.
Embora ainda não seja considerado curável, o mieloma é hoje tratado como uma doença crônica. “Com os avanços das terapias, muitos pacientes vivem anos ou até décadas com boa qualidade de vida, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente”, explica Kerbauy.
O tratamento pode incluir combinações modernas de quimioterapia e imunoterapia, transplante autólogo de medula óssea em pacientes elegíveis e, em casos selecionados, terapias celulares mais recentes.