Queda de balão em Praia Grande completa 1 ano com inquérito reaberto e sem culpados
21/06/2026
(Foto: Reprodução) Queda de balão em Praia Grande completa 1 ano com inquérito reaberto e sem culpados
Era por volta das 7h de um sábado, 21 de junho de 2025, quando um balão com 21 pessoas a bordo decolou em Praia Grande (SC). Logo no início do passeio, a estrutura despencou após pegar fogo, resultando na morte de oito pessoas. Dessas, quatro se jogaram e outras quatro morreram carbonizadas.
Um ano depois do desastre, considerado a maior tragédia do balonismo brasileiro, ainda não há culpados, e as famílias seguem em busca de justiça. O caso é investigado pela Polícia Civil em um processo que corre em sigilo.
O g1 tenta contato com a Sobrevoar, empresa responsável pelo voo, desde sexta-feira (19), mas não obteve retorno até a última atualização da reportagem.
✅ Clique e siga o canal do g1 SC no WhatsApp
Segundo as investigações, o extintor que estava dentro do cesto do balão não funcionou. O balão começou a descer e, quando estava perto do solo, os sobreviventes pularam; entre eles, o piloto.
Por estar mais leve, a estrutura voltou a subir. Quatro das vítimas pularam de uma altura de cerca de 45 metros e morreram. As chamas aumentaram e o cesto, com outros quatro passageiros, despencou. Eles morreram carbonizados.
Os bombeiros enviaram o primeiro relatório sobre a queda às 8h18.
Como está a investigação um ano depois?
A primeira investigação sobre a tragédia havia sido concluída em outubro de 2025, após a polícia ouvir mais de 20 pessoas. Conforme a apuração, o conjunto de provas "não encontrou a existência de conduta humana dolosa ou culposa que tenha dado causa ao incêndio em voo".
O inquérito, no entanto, foi reaberto em novembro, um mês após a delegacia anterior encerrar a investigação sem apontar culpados. A retomada aconteceu um dia após a exoneração do delegado de Santa Rosa do Sul que conduzia o caso. Com a troca, o delegado André Coltro assumiu a delegacia do município e passou a comandar a nova fase da apuração.
Em nota, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) informou que os procedimentos relacionados à queda do balão em Praia Grande seguem em andamento e tramitam sob segredo de Justiça, por determinação judicial, o que impede a divulgação de informações detalhadas sobre as investigações.
“O caso é objeto de diferentes frentes de atuação e apuração. Na esfera criminal, o MPSC acompanha as investigações destinadas a esclarecer as circunstâncias do acidente e apurar eventuais responsabilidades. Uma das diligências requisitadas pela Promotoria de Justiça para o aprofundamento das apurações ainda não foi concluída, razão pela qual as investigações permanecem em andamento”, detalhou o MP em nota.
O órgão informou que também há análises relacionadas à proteção dos direitos dos consumidores e às consequências decorrentes do fato na esfera cível. Além disso, um procedimento tramita no âmbito do Ministério Público Federal (MPF).
A Polícia Civil informou que não irá comentar o caso, visto que ele segue em segredo de Justiça.
O advogado Rafael Medeiros, que representa a família de Leando Luzzi, uma das vítimas do acidente, revelou que o inquérito policial aguarda atualmente a realização de uma reconstituição do acidente.
O procedimento, de acordo com ele, será conduzido pela Polícia Científica e por peritos criminais, e contará também com a participação de peritos e assistentes técnicos indicados pelas próprias famílias. Ainda não há uma data para que isso aconteça.
"Há um total descaso porque até agora ninguém foi punido, ninguém foi iniciado, ninguém foi processado, não houve nenhuma reparação para as vítimas. As famílias estão, até hoje, sem reparação, sem as respostas que elas precisam, um total descaso, seja dos autores ali que fizeram, nunca teve um pedido de desculpas, nunca teve sequer uma condolência dos causadores desse acidente, o que causa revolta a essas famílias", diz o advogado.
Treze pessoas sobreviveram, incluindo o engenheiro Victor Hugo Mondini Correa e a médica veterinária Laís Campos Paes. O casal de Curitibanos, no Oeste de Santa Catarina, conseguiu saltar da estrutura em chamas e caiu em uma área de vegetação que amorteceu o impacto.
"A lama amorteceu a nossa queda. A gente conseguiu evitar mais lesões por causa dessa lama", disse Correa.
Queda de balão em Praia Grande (SC)
Redes Sociais/Reprodução
Quem são as vítimas
Outras oito vítimas, infelizmente, não sobreviveram e morreram na tragédia. Veja abaixo quem são:
Leandro Luzzi, de 33 anos: era patinador artístico e dava aulas em Brusque, no Vale do Itajaí.
Leane Elizabeth Herrmann, de 70 anos: moradora de Blumenau, estava no passeio de balão com a filha Leise Herrmann Parizotto.
Leise Herrmann Parizotto: médica e servidora pública de Blumenau, no Vale do Itajaí. Estava no passeio com a mãe Leane Elizabeth Herrmann.
Janaina Moreira Soares da Rocha (46 anos) e Everaldo da Rocha (53 anos): Casal de Joinville, no Norte do estado, que estava a passeio na cidade.
Fabio Luiz Izycki (42 anos) e Juliane Jacinta Sawicki (36 anos): Fabio era primo de 2º grau do prefeito de Barão de Cotegipe (RS) e trabalhava em uma agência do Banco do Brasil. Juliane era engenheira agrônoma e sócia de uma empresa de assessoria rural.
Andrei Gabriel de Melo: era oftalmologista e atuava em Fraiburgo, no Meio-Oeste catarinense.
Da esquerda para a direita: Leane Elizabeth Herrmann, Leise Herrmann Parizotto, Leandro Luzzi, Fabio Luiz Izycki, Juliane Jacinta Sawicki, Everaldo da Rocha, Janaina Moreira Soares da Rocha e Andrei Gabriel de Melo
Reprodução
Mais de 20 municípios brasileiros possuem autorização formal para receber voos comerciais de balão, diz ANAC
O acidente motivou a atualização das normas para voos de balões tripulados no Brasil, as quais entraram em vigor em dezembro de 2025, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Sete meses após a entrada em vigor da norma de transição, o país já contabiliza 88 operadores autorizados. Atualmente, 25 municípios brasileiros estão autorizados a realizar voos comerciais, sendo quatro em Santa Catarina, explica Fábio Fagundes, gerente de Operações da Aviação Geral da ANAC.
“Começamos em dezembro do ano passado essa transição. Já estamos há sete meses. Nesse período, a gente já tem 159 balões que passaram por essas inspeções e, decerto, desses, 145 já estão vinculados a algum operador já cadastrado pela ANAC.”
Antes, segundo a Anac, a regulação permitia duas formas para operações de balonismo: aerodesporto (em que os praticantes atuam por sua própria conta e risco) e certificada (que presume a certificação da empresa operadora dos balões, dos pilotos e das aeronaves).
Com a nova regra, os balões utilizados em voos comerciais poderão ser certificados, ter autorização de voo experimental (Cave) válida ou ser cadastrados como equipamentos de aerodesporto. Os modelos não certificados precisarão passar por avaliação técnica e poderão transportar até 15 pessoas. Todos os balões deverão contar com equipamentos de segurança, como altímetro, rádio, extintor e sistema de desinflagem rápida, além de seguro obrigatório (RETA).
Empresas que oferecem voos precisam estar cadastradas na Anac, elaborar planos de voo com base em dados meteorológicos, manter o registro das manutenções e orientar os passageiros sobre segurança, tipo de balão e habilitação do piloto.
A estimativa da agência é que toda a transição regulatória seja finalizada em 2028, quando estarão em vigor regras definitivas e permanentes para o balonismo comercial no Brasil.
Leia também: relembre a queda de balão em Praia Grande (SC)
Investigação sobre queda com 8 mortos é reaberta após troca de delegado
Cesto de 6 metros, R$ 550 por pessoa e voo a mil metros: como é o passeio
'Barulho da morte': moradores lidam com traumas e evitam assunto
Balonismo comercial tem novas regras no Brasil após acidente que matou 8 em SC; veja o que muda
Queda de balão em SC: vítimas do acidente faziam passeio em família
O que diz a prefeitura de Praia Grande?
O município de Praia Grande vive uma fase de reconstrução e crescimento no setor turístico um ano após a tragédia da queda do balão, destacou o secretário de Turismo da cidade, Henrique Maciel. Para ele, o processo de adaptação à nova regulamentação estabelecida pela ANAC está sendo “tranquilo”.
“Nós temos praticamente 22 empresas hoje e todas essas empresas passaram por esse processo de ajustes dentro da regulamentação. Mas foi muito tranquilo. As nossas empresas já vinham sempre trazendo isso tudo com muito cuidado, sempre com muita atenção. São equipamentos novos. O balonismo aqui na cidade já não era um produto muito antigo; por ser um produto novo, então, praticamente essas empresas já estavam realmente muito próximas de tudo que a ANAC [exige].”
Sobre a segunda etapa da regulamentação, programada para iniciar entre o final do ano e o começo de 2027, as empresas deverão apresentar laudos técnicos exigidos anualmente. O secretário explicou que o processo funcionará como uma continuidade.
"Todo ano agora todas as empresas... assim como um carro que tem que passar por uma vistoria, enfim, por uma vistoria anual, então o equipamento técnico do balonismo praticamente é a mesma coisa, então está tranquilo isso."
"Capadócia Brasileira"
Com 8,2 mil habitantes, Praia Grande, a "Capital dos Cânions" de Santa Catarina, tem na procura de turistas pelo balonismo a principal atividade econômica da cidade. São cerca de 600 voos todos os meses — mais de 7,5 mil por ano —, segundo a Secretaria Municipal de Turismo.
A tragédia de junho do ano passado, conforme a prefeitura, foi o primeiro acidente com fatalidades desde o início da prática na cidade, em 2017. O balão envolvido tinha capacidade para carregar até 27 pessoas ou 2.870 quilos.
Desde o começo da atividade, foram realizados mais de 50 mil voos na região. Em relação a acidentes, a Secretaria de Turismo reforça que outras pequenas ocorrências já foram registradas, mas nenhuma com tamanha gravidade. Em 2021, o ex-participante do Big Brother Brasil Lucas Gallina relatou que passou por um pouso de emergência durante um passeio após fortes rajadas de vento. Já o atleta Fabricio Pacholok filmou a própria queda em 2023.
Balonismo em Praia Grande (SC)
Patrick Rodrigues/ NSC
VÍDEOS: mais assistidos do g1 SC nos últimos 7 dias